O primeiro sentimento diante das obras de David Kessel é certamente essa impressão de alegria, de júbilo mesmo, face às suas explosões de cores francas e às suas temáticas. Grande número de textos sobre o seu trabalho menciona-o, identificando muitas vezes a sua paleta au Fauvismo. Dever-se-ia provavelmente evocar também o Expressionismo da Europa do norte (particularmente o grupo Cobra) e a Pop Art. Mas além da cor, o elemento mais marcante do seu trabalho parece-me ser a sua capacidade em operar o que poderíamos qualificar de «síntese de formas». Como na arte do vitral, na pintura de Valerio Adami, por vezes na de Matisse ou de Picasso, consegue uma simplificação das superfícies, uma espécie de «essência primeira das formas» na qual divide o espaço com contorno preto, enchendo de seguida as zonas delimitadas com tintas monocromas.

Esses espaços são muitas vezes complexificados por figuras geométricas (quadrados, retângulos,…) que altera em planos sobrepostos e afinam e reestruturam o conjunto.

A imagem toma finalmente uma aparência de simplicidade, mas o processo de síntese utilizado é na verdade muito «sábio». A graça deste processo faz com que as operações complexas o conduzam a imagens que nos aparecem in fine como «evidentes» e «naturais». Isso faz pensar à falsa simplicidade de um traço de Matisse… É provável que o seu passado como ilustrador o tenha ajudado a obter essa depuração e essa eficácia da imagem. Deteta-se igualmente essa «complexidade discreta» na panóplia dos materiais que utiliza (óleo, acrílico, aguarela, carvão, telas, tecidos, madeira, objetos,…). Falo aqui apenas da gramática pictórica de David Kessel, de acordo com o princípio em que acredito: na pintura, apenas conta a pintura… O seu universo é tão sensual, tão caloroso, tão feliz de viver, de amar, se sentir, de exultar, de brincar, de preservar o olhar puro do entusiasmo da infância, que é impossível não ter em conta o sentimento que isso provoca inexoravelmente em nós: a felicidade dessa visão do mundo, rara, salutar, repleta de maravilhamento e de esperança. Penso mesmo que a encontramos atrás da falsa evidência das temáticas alegres. O bom humor dos palhaços evoca a comédia humana, o flamejante dos índios fala também do seu massacre, o fausto da Belle Époque torna-se nostalgia do passado, os «interiores» transformam-se em pesadelos e as portas em labirintos inextricáveis… O trágico destino asquenazim da nossa geração que o molda e com o qual não cessa de lutar condu-lo a essa resistência tão notável de um humor constante… Mas o seu sorriso sobre a vida, o seu pudor e a forma que escolhe sabem sempre mascarar esse aspeto causador de ansiedade falando apenas de alegria, de felicidade e de cores. E isso parece-se muito com o ser humano que é o David: contra ventos e marés, brinca e ri sempre…

ALAIN KLEINMANN