Ao tempo que passa

Na pálida manhã, tudo não era mais já que cor, e cinza do que havia sido a véspera,

logo antes que a tela branca se apague, para dar lugar a um caminho de luz,

onde a solidão do artista se afoga naqueles rostos parecendo anónimos que ele cria,

mas que lhe são tão familiares, e que lhe restituem a confiança.

Desse mundo que ele crê criar, por um momento, logo depois que a paleta, afogada em cores, se convulsiona só, órfã, insatisfeita. Toques de sensações, vestígios de fragrância.

Tudo não é mais do que ilusão, imaginário, convite ao sonho, ao seu próprio sonho,

na noite espessa, onde tudo parece silencioso.

Único ruído que não cansa, o pincel agarrando uma cor, fugaz,

vindo misturar-se com outras para formar um bouquet, uma rosa, um sol, e embriagar-se das suas misturas para não mais diferenciar a noite do dia.

Como se a linha do horizonte não fosse mais uma linha de demarcação.

À medida que, em camadas sucessivas, o tempo já só aparece como meramente ilusório

e único raio de esperança, no caminho, depois da travessia.

Do branco das dunas do deserto aos áridos confins do meu pensamento

onde a aventura me leva.

Dessas sucessivas viagens, onde me apraz reencontrar sensações de bem-estar,

dos cenários, Havana rima com ocre, amarelo, savana, mel ou sépia,

salsa com cor de cobre no contorno de um seio,

os meus pensamentos vagabundam em filigrana.

Gosto desse tempo que se domestica.

E quando o cântico dos pássaros acompanha a primeira luz nascente,

e que a porta do atelier se fecha, a vida lá fora surge como o cenário de um teatro.

Onde nos comprazemos a pensar que a vida “verdadeira” é a dos pincéis.

Fragmentos de sonho e de infância que misturamos nela para torná-la mais autêntica.

 

DK