A cor…. Ousar a cor

Michel Pastoureau no seu “Pequeno livro das cores”, informa-nos sobre o modo como as sociedades, no decurso da sua história, se abeiraram da cor, «reveladoras da evolução das nossas mentalidades».

Houve épocas de rejeição de certas cores,  como o azul na Antiguidade ou na Idade Média.

O «Verde», durante largo tempo, foi considerado encarnação do mal ou de valores nefastos.

Ainda hoje, é mal considerado, nomeadamente no mundo das artes e do espetáculo.

Ora, pintar com cores é desapegar-se de todos esses subjetivismos, esses jugos que não têm em si nenhuma razão de ser.

Desembaraçar-se dos a priori(s).

A cor é uma expressão «existencial». Uma opinião dirão alguns.

Contrariamente às escolas de pintura francesa de Pont Aven ou de Barbizon, os códigos ligados à cor são aqueles que lhe atribuímos. Mais não são do que a nossa própria interpretação construída com o nosso sentir, com aquilo que nos toca, com as nossas viagens, com os nossos encontros. É sentir as coisas como que aflorando-as com a ponta dos dedos, apreendendo  a mais  ínfima sensação.

Se, para representar o passado, quero jogar numa tela com os azuis, noutra passaria pelo sépia, pelos castanhos ou pelos suaves alaranjados.

Nada é imutável. Tudo é movimento.

E, se, como preconiza Pastoureau, «tudo é regido por um código não escrito, do qual as cores detêm o segredo, referindo-se ao facto que cada sociedade, em cada época, cria o seu próprio código, libertar-se, tanto quanto, dele é libertar-se dos clichés.

«As cores veiculam tabus, preconceitos aos quais obedecemos sem saber, contendo sentidos escondidos que influenciam o nosso meio ambiente, os nossos comportamentos, a nossa linguagem, o nosso imaginário».

Tal como o cor-de-rosa para as meninas bebés e o azul para os meninos bebés.

Porque nem sempre assim foi.

Libertar-se das nossas ambivalências.

Pintar a cor é «ousar».

Usá-la como se quer, fazer malabarismos.

 

D.K.