Imaginar induz inevitavelmente a noção de imagem e, paralelamente, a variedade dos conceitos que criam a realidade. Pois não existe apenas uma forma de interpretação do real, mas tantas visões como de artistas. A de David Kessel não se inscreve em nenhuma corrente, porque cultiva as suas próprias referências. Oriundo da edição, tendo passado pelo desenho publicitário e a ilustração, Kessel não tardou em fazer do ato pictórico a base da sua escrita, e da imagem o seu eixo privilegiado.

Tivesse ele contemplado a sua geração, poderia ter seguido os prolongamentos das vias abstratas, o fantástico ou o Hiperrealismo, ter praticado a pintura de paisagem ou então ceder à figuração em voga. Mas a partir do seu currículo pessoal e do seu coeficiente emocional, é o espetáculo do mundo que mobilizou o seu espírito e a sua paleta. Não o reflexo da sua dramaturgia universal, com o seu rol de erros insustentáveis, mas um mundo mais leve, popular ou sofisticado, e conjuntamente o da música, do circo, da cidade, da rua, sem esquecer o reino do havana que, na sua qualidade de epicurista assumido, gosta de partilhar. As suas personagens sempre muito estilizadas, transportam-nos para o universo da Belle Époque, da qual aprecia o fausto, da mesma forma que a vida jornaleira laboriosa.

Tudo, na sua tipologia exumada: códigos de vestimenta, bigodes floridos, lugares urbanos ou intimistas, chapéus e boinas, dandies e aristocratas, ladrões e meretrizes - recorda-nos Robert de Montesquieu ou Brumell por um lado, e «Capacete de ouro» por outro-. Tudo, portanto, imerge-nos numa realidade diferida, e lembra-nos simultaneamente, como o enunciava Radiguet, que «esse velho mundo não está mais velho do que no primeiro dia do seu nascimento». Assim é a atmosfera, um nada nostálgica, que nos restitui o artista com uma ternura festiva entremeada de melancolia. E essa atmosfera, que tem o sabor do que traz nele, além de um tempo dado, deixa filtrar a mesma gama contrastada de sentimentos humanos. Agora, num plano formal, o que impressiona desde início, no seio das suas composições coloridas, engastadas geralmente de numerosas personagens, é a segurança do traço que define os contornos, afina um detalhe ou salienta uma expressão, é também o rigor na profusão, o aspeto dos rostos com ar de máscara e olhos fixos, os planos de fundo nunca neutros, enfim, a cobertura cromática fragmentada que exalta o conjunto desses fogos controlados e que canta ao diapasão das unidades. Escovada por um pincel alerta e preciso, por meio de pequenas ou largas pinceladas recorrentes, que respeitam o esquema estrutural da tela, cada representação é suficiente em si mesma para dizer o essencial, mas não sendo mais do que um complemento da seguinte. Cultivando o relato curto em sequências, o pintor faz-se o relator de um instante fugaz que não se reproduzirá mais, do qual nos lega o testemunho sentimental. Em consequência, o que se implanta não é o pastiche, mas um momento de verdade transcendido pelo ato pictórico, onde domina o humor cúmplice de um fabulista contemporâneo. David Kessel não procura nem provocar nem confundir as pistas. A sua pintura é simplesmente um sonho de felicidade.

GERARD XURIGUERA