Introdução

Venho de uma família com destino peculiar. Um pai resistente deportado em Auschwitz e uma mãe que viveu a estrela amarela e as horas sombrias da ocupação nazi em França. Além das suas mazelas, dessas imagens tenebrosas, souberam calar os seus ferimentos para nos oferecer, ao meu irmão e a mim, o amor e a esperança numa vida melhor, alicerçada no respeito e na dignidade humana. Profundamente humanista, judeu por tradição, soube tomar o melhor deles e tento levar essa mensagem de humanidade que me transmitiram. O meu percurso como pintor começou ao mesmo tempo que os meus primeiros desenhos aos 18 anos. Os meus começos, durante perto de dez anos, como desenhador-ilustrador para a imprensa e a edição, conduziram-me, também, a algumas campanhas publicitárias. Embalado pela minha tradição, a minha pintura nasceu de ambientes de “shtetls”, essas pequenas aldeias judaicas da Rússia ou da Polónia. Com sons de violino ou de clarinete. Música Kleizmer. Nascida dos escritos de Haïm Potok ou de Isaac Bashevis Singer. Pinturas de Chagall ou de Soutine. Pouco a pouco, ao longo das minhas viagens, os meus temas diversificaram-se. À medida que tomava consciência que o mundo é o nosso planeta, e que somos todos os seus habitantes. Esses temas são como outros tantos convites à viagem. Tudo é pretexto para a cor e para a descoberta de novos horizontes. Talvez tenha sempre tomado o presente como uma prenda, o passado como um ensinamento, e o futuro como uma piada. «Somente essa aparente inocência é séria… É por isso que pintas tão bem os pássaros. De uma assentada, as mais ínfimas vinhetas da vida tornam-se profundas e significantes sob o teu pincel: um terraço parisiense, uma partida de cartas, um camarote de navio, um belo retrato de mulher,… A mensagem está subjacente, a liberdade daquele que olha é tão grande como a liberdade daquele que criou. E como és tu o artista e o passador, seguimos o teu coração onde este nos leva.» Nathalie Salmon, em escassas linhas, inicia um código de honra, o qual quero que seja coluna vertebral do meu pensamento. Nunca impor uma única leitura e dar a possibilidade ao observador de se posicionar em relação à minha criação. A pintura é como música na encruzilhada de várias culturas. É primavera. Como outras tantas mãos que se abrem, de corações que se desvendam. A pintura é uma renovação incessante. Interroga. É além da emoção o que deve suscitar a pintura.

D.K .