A tela branca

Para muitos artistas, será a tela branca sinónima

De uma longa interrogação?

Libertar a palavra é fazer viver. A palavra exprime-se através da pintura.

Expressar-se é existir. A tela branca tem valor de silêncio.

Carta a uma desconhecida, como em “les passantes”, poema de Antoine Pol

e retomado por Georges Brassens.

«Desta tela branca de tanto a contemplar, vejo nela um caminho que me convida a trilhá-lo. Na senda de uma ruela, adivinho o pavimento luzidio, e se me obstino, os degraus das casas, até aos engonços das portas.

Com um olhar furtivo, algumas sombras vêm juntar-se, num espaço-tempo transformado

com algumas pinceladas.

Sentimentos de aguarelista que varre a sequência, em camadas espessas, como que para afirmar o peso dos anos. Atrás de uma porta adivinhada, um corredor escondido,

imagino, insensato,  cenas onde te busco e mesmo quando o meu olhar vai além das formas, que não se abandone numa curva, ou num efeito de ilusão de ótica*, alguns efeitos de faca, para densificar a matéria, e com algumas pinceladas, criar relevos, ou o contorno dos teus seios, reatar o elo perdido, recriar o tempo que se esvai, na manhãzinha, quando te adivinho ao meu lado.»

 

D.K.