Vincent,
como pude explicar-te na minha última carta, tomei a liberdade de plagiar a tua tela «Dans ma chambre», aquela que nos faz entrar no teu quadro de vida em Arles. Aproximei-a em tratamento aguarela, querendo imitar um pouco o teu estilo de pintura, fazendo-lhe um piscar de olhos.
E depois, de repente, essa tela, pela qual nutro particular carinho, apoderou-se de mim e inspirou-me a série «Interiores». A dizer verdade, a tua tela tocou-me ao ponto de querer oferecer-lhe um prolongamento. Penso que atiraste nela, de uma rajada, as tuas angústias, tentando proteger o teu refúgio do mundo exterior. Eu agarrei essa representação do mundo interior para mostrar como o nosso espaço privado reflete as nossas vidas. Uma espécie de jogos de espelhos entre o que somos e o reflexo dos nossos interiores, que são exteriores de nós mesmos. Uma certa dialética… Os nossos estados de alma influem o que nos rodeia, assim como o contrário. Tocam-nos nos nossos recantos secretos, pequenas criptas do inconsciente bem ocultadas por detrás dos afetos.
Vincent, para mim, tudo isto é um mergulho na intimidade. A tela é uma janela para um além, uma duplicação do real. Esta série poderia ser o tema de uma vida; coloca em questão as nossas escolhas, da porta que vivemos ora como obstáculo, ora como escapatória. Porta para transpor ou da qual libertar-se. Proteção e fechamento.
A chave diz-nos que somos os únicos mestres do nosso destino, e que se encontra por vezes soterrada nos recantos do nosso pensamento.. Cabe a nós encontrá-la.
A cadeira aguarda e finalmente substitui a personagem. Símbolo das nossas vidas, é o seu constante testemunho, o ator, o «voyeur», o espetador.
Aqui está em poucas o que evoca em mim este momento passado contigo.
Fica sabendo que mesmo que tenha levado emprestado este quarto que foi teu, tentei fazê-lo meu…
D.K.
